
“Eu penso que a Internet será uma das maiores forças para reduzir o tamanho do governo. Uma coisa que está faltando mas que em breve será desenvolvida é uma moeda eletrônica confiável”. (Milton Friedman, 1999)
Nos últimos meses os principais agentes do sistema financeiro global foram surpreendidos pelo avanço tecnológico oriundos do mercado das criptomoedas. Dessa vez foi o Facebook Inc. anunciou a criação de sua própria moeda digital chamada “LIBRA”, que será negociada na metade de 2020.
O impacto foi grande no mainstream econômico que a partir de agora deve considerar com urgência a realidade de expansão global e generalizada desse tipo de divisa/moeda, que coloca em cheque toda a estrutura financeira global existente hoje.
A ideia de ter o gigante Facebook por de trás dessa criptomoeda fomenta diretamente a capacidade de propagação e adoção da LIBRA como forma de pagamento digital. Quando comparada as demais criptomoedas existentes, a LIBRA já detém de partida uma base de possíveis usuários de mais de 2 bilhões de pessoas, além do fato do Facebook deter as preferências de consumo, comportamento e relações intersociais de todos os seus usuários.
O primeiro ponto que diferencia a libra (A CRIPTOMOEDA DO FACEBOOK) das criptomoedas já existentes é a existência de um lastro, que é a garantia implícita de um determinado ativo. A libra terá seu lastro em um pacote de ativos de baixa volatilidade que serão protegidos por instituições financeiras globais. Esse pacote de ativos é basicamente constituído por certificados de depósitos bancários, moedas de bancos centrais e alguns títulos de diversos países. A flutuação na cotação da libra se dará pelos mecanismos de mercado, ou seja, oferta e demanda da própria libra concomitante as variações destes ativos que integram seu valor.
A CRIPTOMOEDA DO FACEBOOK
Outra característica de grande relevância da libra é a rede de distribuição e de incentivo. Essa rede é formada por dezenas de empresas estratégicas nos ramos de tecnologia, pagamentos, investimentos e telecomunicações. Dentre essas empresas podemos destacar eBay, PayPal, Visa, Mastercard, Uber, Spotify, Vodafone, Ribbit Capital e Coinbase. Com base nessa rede de distribuição poderosa a moeda poderá tomar espaço no mercado rapidamente, considerando a participação no mercado das empresas-parceiras e a agilidade de negociação das criptomoedas.
A princípio a criação dessa moeda virtual baseia-se na premissa de incentivar o acesso e a inclusão da população ao sistema financeiro. Considerando os dados da UIT – União Internacional de Telecomunicações, no ano de 2017 aproximadamente 2 bilhões de pessoas estão à margem do sistema financeiro mundial, ou seja, não possuem acesso direto aos serviços oferecidos por bancos e/ou instituições financeiras. Aqui no Brasil aproximadamente 30% da população não possui conta em banco, ou seja, 60 milhões de pessoas não tem acesso aos serviços financeiros.
A ideia de criar uma moeda virtual em grande escala é fomentar os mercados subdesenvolvidos, fornecendo à uma parcela considerável da população mundial uma forma é eficaz de manter e realizar suas transações comerciais. Estimativas apontam que esse mercado “marginal” pode girar até US$ 70 bilhões por ano.
Muito embora a premissa de dinamizar e incluir dois bilhões de pessoas no sistema financeiro seja atrativa, há muita briga e disputas de poder nos bastidores do lançamento desta moeda.
O avanço das moedas virtuais tem alarmado cada vez mais os governos e instituições financeiras globais, considerando que o a moeda tradicional é uma grande ferramenta para as políticas econômicas, desta forma quem detém o controle dessas divisas detém também um grande poder de autoridade financeira e econômica em seu território. Um dos principais economistas e formuladores da ciência econômica Friedrich Hayek retrata da seguinte forma o poder dessas instituições:
Quando a economia monetária ainda estava expandindo-se lentamente nas regiões mais remotas e um dos principais problemas era ensinar a numerosos indivíduos a arte de fazer cálculos em dinheiro (o que não se deu há tanto tempo assim), nessa época, talvez, um único tipo de dinheiro, de fácil identificação, possa ter sido de considerável valia. E pode-se argumentar que o uso exclusivo de um único tipo uniforme de dinheiro auxiliou grandemente a comparação de preços, e, portanto, o crescimento da competição e o mercado. Do mesmo modo, quando a autenticidade do dinheiro metálico só podia ser comprovada através de um difícil processo de quilatação, para o qual a pessoa comum não dispunha nem da habilidade nem do equipamento necessários, era possível argumentar com segurança em favor de se garantir a pureza das moedas com a marca de uma autoridade amplamente reconhecida que, fora dos grandes centros comerciais, só poderia ser o governo. Mas, hoje, essas vantagens iniciais, que poderiam ter servido de desculpa para que os governos se apropriassem do direito exclusivo de emitir dinheiro metálico, certamente não têm um peso maior do que o das desvantagens desse sistema (HAYEK, Friedrich A. Desestatização do Dinheiro. São Paulo: Instituto Ludwig von Misses. Brasil, 2011. p.30/31).
A moeda ainda é um instrumento de controle da economia e este por sua vez é guiado pelo governo através de políticas monetárias acelerando a atividade econômica ou minimizando os riscos de uma inflação por exemplo. Entretanto o avanço das moedas digitais irá obrigar os governos inovarem e se adequarem a essas novas demandas do mercado, afim de não se tornarem meros controladores de divisas que estão com seus dias contados. Isso não significa que não deverá ter controle por partes das autoridades monetárias globais, principalmente considerando a possibilidade de um risco sistêmico.
A CRIPTOMOEDA DO FACEBOOK
Ainda haverá muitas discussões, barreiras impostas por governos e problemas generalizados quando se trata de moedas virtuais ou criptomoedas, visto que tudo que é disruptivo quebra padrões existentes e molda um futuro em uma nova perspectiva completamente diferente daquela pré-concebida. Entretanto isso já é uma realidade e o avanço ocorre todos os dias independente de qualquer governo, política ou população.
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