A menina que só perguntava “e eu?”

menina

Há algum tempo, na brinquedoteca, enquanto a acompanhante do paciente foi chamada para conversar com a equipe médica, a menina linda começou a tagarelar.

Estávamos as duas sentadas de frente para o computador, lado a lado. Sozinhas ali. Silêncio total. Do nada, ela me faz a primeira pergunta:

– Tia, porque as pessoas brigam? – referindo-se às pessoas da sua família que não estavam se entendendo, depois do fatídico acidente onde morreram sua mãe e sua irmã.

Desse acidente se salvaram apenas a menina e outra irmã. Desde então, ela estava internada, transferida de um hospital de outra cidade. Tinha quase dois meses ali, após três cirurgias.

A irmã, já de alta hospitalar, foi morar com um parente.
Meio que sem saber o que responder, eu lhe disse que
as pessoas brigam mesmo – algumas vezes até por amor. E completei:

– Nesse caso, o conflito familiar é porque todos amam você. Eles querem cuidar de você. Se você não quer ouvir pode fazer assim, desligar-se do assunto. Quando elas começarem a discutir pense em amor, distribua amor, fale de amor, respire o amor.

– Difícil respirar o amor vendo briga. – ela retrucou.
– Você pode tentar?
– Eu posso, mas é difícil!

Após alguns instantes em silêncio, ela prosseguiu:

– Por que minha mãe morreu?

menina

Minha garganta secou, minha fala quase sumindo, explico:

– Eu contei a você que as pessoas morrem. Chegou o tempo dela estar aqui na terra. Ela já fez o que Deus havia planejado para ela fazer por aqui. Ela cumpriu a missão. Agora, ela e sua outra irmã foram morar no céu. Acredite você que, de onde ela está, vai cuidar de você, da sua irmã e da sua família.

Não contente, a menina lançou a flecha certeira:

– Por que minha mãe levou minha irmã e não eu? É triste ficar aqui sem a minha mãe…

Meus olhos marejaram. Daquele momento em diante eu senti que não tinha mais o que responder. “Senhor, fazei de mim um instrumento”, sussurro mentalmente.

Uma força maior está a me orientar. Se está certo ou errado eu não sei! Sinto que preciso responder, uma criança que sofre e quer colo.

– Lindeza – engulo e falo – pensa que, se Deus levou sua irmã juntamente com sua mãe, talvez seja porque sua mãezinha sabia que sua irmã seria a mais frágil de vocês, se ficasse. As mães sabem de coisas que a gente não sabe. E, então, ela levou aquela que iria sofrer muito mais com a ausência dela. E deixou você e sua irmã para uma cuidar da outra. Porque ela sabe que vocês vão conseguir, são meninas guerreiras. Assim, você ama e cuida dela e ela de você.

Depois de ouvir, ela olhou-me nos olhos e sorriu.
“Pronto, acabou” – pensei eu. Que nada, a pequena pergunta:

– Mas eu não vou ver mais a minha mãe?
– Vamos combinar assim… quando você estiver com muita saudade, e com vontade de falar , abraçar e beijar sua mãe, você pode fazer o seguinte: quando você for dormir, vai para sua caminha com o pensamento e oração focados em sua mãezinha. Pense o quanto seria bom encontrá-la em seus sonhos, feche os olhos, e sonhe. Você poderá sonhar lindos sonhos de amor com sua mãe, com sua irmãzinha. E se acontecer vai ser muito legal, a saudade estará menos doída, entrelaçada em abraços de amor.

Ela sorriu e me disse:
– Tá bom, mas é difícil.

Eu disse a ela que é difícil mesmo, mas vai conseguir, que ela é linda e tem um belo caminho a seguir.

A princesa tem somente dez anos. Pareceu-me ter muito mais do que apenas dez anos. Amadureceu após o acidente? Ou… já nasceu assim.

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