
Aaai esse tema é triste e estava enrolando para falar dele por saber que ia me deixar bem incomodada!
Foi exatamente isso que aconteceu e você já vai entender os motivos.
“Ká, agora tem que comer só orgânicos?” essa tem sido uma pergunta bem frequente no consultório especialmente esse ano com a liberação de mais de 240 agrotóxicos desde janeiro até agora, muitos deles proibidos na Europa e EUA pela alta toxicidade aguda com comprovado aumento no risco de desenvolver diversas doenças, como problemas neurológicos, reprodutivos, de desregularão hormonal e câncer.
Ainda assim, primeiro de tudo, “tem que” nada.
A escolha é sempre sua e essa escolha vai ter como base as suas prioridades e como eu acredito que as nossas prioridades são escolhidas com base em informação, cá estou com informação. Já aviso que depois de ver, não dá mais para “desver” e a responsabilidade vai ser sua.
Vamos lá!
Para contextualizar a nossa realidade, volto ao Dossiê da ABRASCO de 2016 que avaliou 2488 amostras recolhidas em mercados e hortifrutis de todos os 26 estados do Brasil e encontrou 63% das amostras contaminadas com resíduos de agrotóxicos, sendo que 28% dessas amostras estavam ilegais, contaminadas com agrotóxicos proibidos no Brasil ou ainda que permitidos, em concentração acima do limite máximo. Esses números encontrados são referentes à avaliação de apenas alguns agrotóxicos então mesmo entre os 37% considerados adequados talvez alguns estejam contaminados com outras substâncias. Além da contaminação no alimento em si, a absorção pelo solo também contamina os lençóis freáticos e como consequência a água potável.

Justificando esses dados, o documento aponta que o uso de agrotóxico em volume por hectare tem aumentado especialmente desde 2008 e associa esse fator com alguns pontos, dentre eles a diminuição dos impostos em agrotóxicos, a resistência das sementes transgênicas e a crescente resistências das “ervas daninhas”, fungos e insetos, o que desencadeia a “necessidade” de maior uso. O volume de agrotóxicos é dividido em diversas culturas, sendo em torno de 40% na soja, seguido pelo milho com 15%, cana e algodão com 10% e o restante para as demais culturas, como café, trigo e hortaliças. Apesar do volume de agrotóxico usado na soja ser o maior, a concentração em volume de agrotóxico por hectare nas hortaliças em comparação com a soja é de 8 a 16x maior. Vale destacar ainda que essa soja e milho são usados especialmente para a produção de ração pecuária e os resíduos de agrotóxicos ficam acumulados na carne desse animais, sendo posteriormente consumida por você e sua família. Desde 2008, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos no mundo, com uma média de mais de 5kg por brasileiro por ano em 2016.
Se o cenário em 2016 já era preocupante, imagine hoje se apenas esse ano foram liberados 249 agrotóxicos até agora, muitos deles (a maioria) proibidos na Europa e EUA. Além do comprovado efeito tóxico dos resíduos de agrotóxicos para você consumidor e suas crianças em aleitamento já que os resíduos também são passados para o leite materno, também é preciso considerar o crescente número de intoxicação em trabalhadores rurais e suas famílias, além do risco para a diversidade de flora e fauna, especialmente de abelhas que são essenciais para a polinização natural e vida humana.
Talvez nesse momento você esteja se questionando sobre a segurança das pesquisas e limite máximo permitido e devo dizer que as pesquisas colocam o “limite máximo” para o alimento e “ingestão máxima diária”, com ausência de clareza sobre o efeito cumulativo no consumo de diversos alimentos contaminados além da água e como forma de responsabilizar o consumidor sobre o uso de uma substância comprovada como tóxica para a saúde e o meio ambiente. Dessa forma, devo dizer que a única solução verdadeira é consumir alimentos orgânicos.
Se para a sua realidade ainda não é possível consumir a maior parte dos alimentos orgânicos, deixo o convite para dar preferência pelo menos para os mais contaminados (figura). E sobre os demais ou quando nem isso for possível, algumas estratégias diminuem os resíduos e podem ser incluídas na sua rotina de higienização. A primeira e mais fácil é simplesmente lavar com bucha vegetal em água corrente, literalmente retirando os resíduos do alimento. Outra estratégia é deixar de molho em água com bicarbonato de sódio a 1% (10mg/ml) por 15min, sendo que essa técnica foi testada apenas para dois tipos de agrotóxicos e vale destacar que agrotóxicos são sistêmicos (todo o alimento absorve a substância) e essas estratégias apenas diminuem os resíduos superficiais por isso a solução ideal é realmente consumir orgânicos.
E aí estratégias para ser possível o consumo de orgânicos, a primeira coisa é comprar direto com o produtor, em feiras, com distribuidores de cestas ou através do CSA (Comunidade que Alimenta a Agricultura) pois assim você valoriza o produtor e ainda tende a ser mais econômico.
É isso amores, eu avisei que depois de ver não tem mais como “desver”. Agora você tem a informação!
Beijos mil e até semana que vem!
Aah, aqui vai o site do CSA
Aqui em Jundiaí você tem feira de orgânicos aos domingos na pracinha entre a La Torre e a Av Nove de Julho.
Se você conhece outros lugares, deixe nos comentários!
